Do Coletivo à Comunidade: resgate da minha trajetória no campo de trabalho com Sartre

Vivenciar o V Congresso Internacional sobre Sartre na UERJ teve um significado muito especial e me fez refletir, com muito orgulho, sobre a minha trajetória e o sentimento de pertencimento e potência dessa caminhada. 

Minha entrada no universo dos estudos de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir não se deu diretamente pela via da atuação clínica. Embora já tivesse contato com a abordagem na graduação, entre 2002 e 2003, com a Prof.ª Marisa Santiago Rosa e, depois, um pouco mais tarde entre 2007 a 2009 através de diversas leituras e discussões nas disciplinas do mestrado em Psicologia com a Prof.ª Juracy Tonelli e especialmente com a minha colega e amiga Irene Ehrlich — com quem entendi, na prática e na convivência, como os conceitos operavam —, minha inserção laboral sempre esteve voltada para as atividades grupais, formativas, educacionais e, especialmente, no âmbito das questões da Psicologia do Trabalho e da Psicologia Social do Trabalho.

Contudo, o ano de 2018 marcou um ponto de inflexão decisivo: foi no I Congresso Internacional de Sartre, em Florianópolis, que encontrei o impulso definitivo para adentrar formalmente nesse caminho. O congresso ocorreu no mesmo dia do incêndio que assolou o Museu Nacional no Rio de Janeiro, foi inesquecível a dor de perder um potente equipamento público carregado de história.  Após aquele evento decisivo, iniciei minha trajetória na clínica existencialista e passei a atuar ativamente nessa perspectiva.

Essa caminhada ganhou ainda mais corpo com a participação em Grupos de Trabalho (GT) de psicologia existencialista com o Psicólogo Orientador Sergio Monteiro Dias e as formações no Instituto Nexis e no IFEN.  Todo esse esforço foi coroado com o ingresso no pós-doutorado no Instituto de Psicologia da UFRJ sob a orientação do prof. Fernando Gastal de Castro. Com essa bagagem, consolidaram-se também os trabalhos na docência no ensino superior, atuando como professora de graduação na Universidade Estácio de Sá entre 2021 e 2023 — onde lecionei e disseminei a abordagem fenomenológico-existencial com fundamento em Sartre e Simone —, a escrita de textos em blogs e a própria atuação na psicologia clínica.

Todo esse caminho percorrido desde 2018 faz com que o sentimento de "me sentir parte" não seja algo novo ou restrito ao agora; na verdade, hoje percebo que já vinha trilhando esse espaço com propriedade. Neste V Congresso, no entanto, esse pertencimento amadureceu e se transformou na certeza de estar integrada e acolhida por essa comunidade científica.

O potencial teórico, metodológico e crítico das ideias de Sartre é imenso. Notadamente nos últimos anos, sua filosofia tem sido objeto de crescentes estudos, teses, artigos e debates nos mais diversos campos do conhecimento, fruto da atualidade de suas reflexões e da renovação que estimula no modo de pensar o ser humano e a sociedade (Homepage I Congresso Internacional de Sartre, 2018).

Espaços como este congresso são vitais para propiciar o encontro e a troca entre pesquisadores, suscitando reflexões, projetos e subsídios para o enfrentamento das crises éticas e sociais contemporâneas, seja na filosofia, na literatura engajada ou na psicologia e psicopatologia crítica.

Após o V Coninsar me sinto renovada e com a certeza de que o existencialismo segue produzindo, vivo, pulsante e fundamental para transformarmos a realidade, a clínica e as relações de trabalho hoje. 

Que venham os próximos encontros!



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