Burnout Não é Falta de Férias infelizmente: Ele é o Fracasso do Seu Projeto de Ser.
O Conflito Invisível: Quando o Trabalho Devora a Existência
Por que tantas pessoas, mesmo em empregos bem-sucedidos, sentem um vazio profundo e um esgotamento crônico que nem mesmo as férias conseguem curar? A resposta está na filosofia e na sociologia, e ela aponta para as compreensões/conceitos de Má-Fé (Filosofia Sartreana) e a crise da Centralidade do Trabalho (Sociologia do Trabalho).
O esgotamento profissional (Burnout) é mais do que estresse: é o sintoma de um processo de anulação. Segundo o psicólogo do trabalho Fernando Gastal de Castro (2012), ele é o "fracasso do projeto de ser" no âmbito da organização.
Para entender isso, precisamos unir a crítica social de Karl Marx e Ricardo Antunes com a filosofia da liberdade de Jean-Paul Sartre.
1. O Ponto de Vista Coletivo: A Centralidade do Trabalho (Marx e Antunes)
A sociologia e o materialismo histórico nos ensinam que o Trabalho (com "T" maiúsculo, como atividade humana fundamental) não é apenas um trabalho/emprego (um cargo ou uma remuneração), mas a categoria fundante do ser social. É a atividade que distingue o humano dos animais, pois transforma a natureza e cria a própria humanidade. É a chamada Centralidade Ontológica do trabalho (Antunes, 1995).
Entretanto, no capitalismo, essa atividade vital assume uma forma pervertida, marcada pela contradição:
A Contradição do Trabalho (Marx)
O esgotamento ocorre quando o seu Trabalho Concreto — seu esforço criativo, suas habilidades, o sentido de fazer algo útil — é completamente engolido pelo Trabalho Abstrato. Você deixa de ser um carpinteiro que faz belas cadeiras para ser apenas o dispêndio de força humana medido em horas que gera lucro/dinheiro.
É por isso que o sociólogo Ricardo Antunes (1995) defende que o trabalho mantém sua centralidade: a luta pela sobrevivência e a própria constituição do ser dependem dele, mas ele está cada vez mais precarizado e submetido à lógica do capital.
2. O Ponto de Vista Individual: A Fuga da Liberdade (Sartre e Castro)
É aqui que a Psicologia Existencialista entra para diagnosticar o sintoma individual dessa crise estrutural: a Má-Fé (autoengano).
Jean-Paul Sartre explica que o ser humano é a única criatura cuja existência precede a essência. Não nascemos com um manual ou um propósito divino; somos condenados a ser livres.
Ser-Para-Si (Liberdade): A consciência livre que se projeta, cria seu futuro e está sempre em devir (tornar-se).
Ser-Em-Si (Fato): O que você é agora, seu papel, seu rótulo, seu trabalho/emprego específico (o cargo, o diploma, a identidade social).
O Burnout é a falência da sua tentativa de ser integralmente definido pelo seu trabalho/emprego. Você tentou ser apenas o Ser-Em-Si (a função abstrata) que o sistema exigia, mas o Ser-Para-Si (sua consciência, seu projeto de vida autêntico) se revoltou e colapsou.
O "fracasso do projeto de ser" (Castro, 2012) é a consequência individual da anulação do seu sentido concreto em nome da lógica abstrata do capital. Você vive em Má-Fé quando diz: "Eu sou meu emprego", "Eu não tenho escolha", ou "Eu tenho que fazer isso".
3. A Síntese: O Trabalho como Ferramenta do Projeto de Ser
A saída não é negar o trabalho/emprego — afinal, ele é ontologicamente central para a vida humana e social. Mas redefinir a sua relação com ele, e assim a saída é a Retomada da Autoria.
Ou, em outras palavras, você precisa operar uma mudança na sua perspectiva, lutando para que o Trabalho Concreto (seu sentido) prevaleça sobre o Trabalho Abstrato (a exploração).
Operar uma mudança na sua perspectiva:

A terapia existencialista atua justamente nesse ponto: devolvendo a capacidade de ser o autor de sua própria história e projeto, investindo a renda e o tempo do trabalho/emprego para o seu sentido autêntico (Schneider, 2006).
O trabalho/emprego não é o seu destino; ele é a sua situação. A Liberdade é escolher o que fazer com essa situação, e a Responsabilidade é arcar com essa escolha.
Conclusão e Reflexão Final
Pare de procurar a salvação no próximo feriado ou na próxima promoção. A verdadeira libertação começa com a sua escolha de viver em Autenticidade.
Seu Projeto de Ser deve ser maior e mais amplo do que o cargo que você ocupa.
Qual é o seu projeto concreto, além do seu crachá?
Referências:
Antunes, R. (1995). Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. Cortez.
Castro, F. G. (2012). O fracasso do projeto de ser: burnout, existência e paradoxos do trabalho. Garamond Universitária.
Marx, K. (Séc. XIX). O Capital: Crítica da economia política (Livro I, Volume 1). (Diversas edições e traduções brasileiras, sendo as mais comuns: Boitempo, Civilização Brasileira)
Sartre, J. P. (1943/1997). O ser e o nada: Ensaio de ontologia fenomenológica. Vozes.
Schneider, D. R. (2006). Novas perspectivas para a psicologia clínica a partir das contribuições de J. P. Sartre. Interação em Psicologia, 10(1), 77–86.


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