Por que descansar não basta? A fadiga segundo "A Loucura do Trabalho" de C. Dejours

                                                        Fonte: Gerada por IA 

Muitas vezes, a medicina tradicional e o senso comum tratam a fadiga como um simples gasto de combustível biológico. Do tipo que houve um descarregar a energia como uma espécie de bateria, à semelhança de um dispositivo eletrônico. Porém, em seu livro "A Loucura do Trabalho", Christophe Dejours altera essa lógica. A partir da análise da obra, compreendemos que a fadiga não é apenas um "cansaço", mas um dos resultados possíveis de um conflito entre a subjetividade humana e a organização de trabalho, especialmente quando essa é pautada por processos rigorosos e que impedem um espaço de integração do ser com seu fazer. Vejamos mais esse fenômeno em sequencia.


1. A Fadiga como Bloqueio da Subjetividade

Para Dejours, a fadiga surge quando a organização do trabalho impõe um ritmo ou uma tarefa que funciona como um obstáculo à "vivência subjetiva". Não é o esforço dos órgãos que esgota o trabalhador, mas a repressão da atividade espontânea desses órgãos (motores e sensoriais). Quando o trabalho impede que o sujeito coloque sua identidade e criatividade na tarefa, o corpo "trava" em forma de fadiga.

“A fadiga é simultaneamente psíquica e somática. É psíquica porque corresponde a um obstáculo para o psicossomático e por ser uma vivência subjetiva. Mas é também e principalmente somática porque sua origem está claramente no corpo... parece uma repressão da atividade espontânea desses órgãos motores e sensoriais.”

A fadiga não provém somente da sobrecarga de um órgão ou aparelho, tal como aponta a história da biologia e da fisiologia, mas envolve as diversas capacidades humanas como se envolver, atenção, objetivos, propósito. Tanto é que é possível haver inclusive fadiga em contextos de inatividade, conforme o caso apresentado em sequência das secretárias. A inatividade torna-se fatigante porque não é um simples repouso, mas uma repressão — uma inibição da atividade espontânea das coisas humanas de fazer e construir além do próprio movimento dos seres humanos. 

2. O Impacto da Organização do Trabalho: O Caso das Secretárias

A fadiga está diretamente correlacionada à forma como o trabalho é estruturado. Se a organização é rígida e não oferece espaços para a espontaneidade, ela gera uma inatividade interna onde não há espaço para a subjetividade. 

O caso das secretárias é o seguinte. Elas foram submetidas à disciplina de horários e ao controle de uma chefia, foi-lhes dado quase nenhum trabalho.No entanto, ao mesmo tempo, foi-lhes proibido efetuar atividades não profissionais (como tricotar ou fazer palavras cruzadas). A consequência disso foi que ocorreu o surgimento de uma fadiga considerável, que as levou a licenças de trabalho, tal como indicou Dejours. 

Este caso demonstra os efeitos da organização do trabalho sobre a economia psicossomática, que refere segundo Dejours ao equilíbrio entre seus sentimentos e desejos com o exercício do seu corpo e suas atividades. Ocorre que quando a organização do trabalho efetua um bloqueio desse equilíbrio por funções rígidas e sem possibilidade de envolvimento e também de transformação, ocorre um prejuízo nesse sistema com fadiga crônica e um possível adoecimento mental. 

O prazer não está na ociosidade; a inatividade duradoura não é prazerosa, pois o aparelho psíquico precisa de investimento e ação.

3. A Fadiga como Sinal de Alerta

Se a fadiga é "uma inibição da atividade espontânea", ela funciona como um sinal de que a economia psicossomática está em desequilíbrio. A organização do trabalho, ao ignorar a necessidade de vivência subjetiva, transforma o potencial de ação em sintoma de adoecimento.

"A sobrecarga, portanto, não é apenas quantitativa; é a pressão de uma organização que sufoca a subjetividade. Quando o trabalhador é impedido de agir espontaneamente, ocorre uma contaminação da economia psicossomática, onde a fadiga deixa de ser um cansaço individual para se tornar um sintoma de uma seção inteira que padece de um 'repouso forçado' e sem sentido."

4. O Choque entre o Indivíduo e a Organização

Para Dejours, o sofrimento emerge do choque entre uma história individual (portadora de projetos, esperanças e desejos) e uma organização do trabalho que os ignora. Esse sofrimento mental começa quando o homem já não pode fazer nenhuma modificação na sua tarefa para torná-la mais adequada conforme às suas necessidades fisiológicas e desejos psicológicos. Com isso, a relação individual entre o sujeito e sua atividade laboral, como falam relação homem-trabalho, é bloqueada e sem possibilidades de criação. 

O trabalho repetitivo mecânico cria uma insatisfação que não se limita a um desgosto particular; é uma porta de entrada para a doença e uma encruzilhada para descompensações mentais ou doenças somáticas.

5. Conclusão: O corpo pede passagem

A análise de Dejours nos mostra que a fadiga é um sinal importante de um processo que envolve a organização do trabalho e o trabalhador, frequentemente sinaliza que esse não está adequado e, ao invés de potencializar as capacidades do individuo, ela está de alguma maneira o sufocando-o. Com isso, não há repouso que melhore a condição da fadiga.

Para evitar essa "loucura", não basta parar de trabalhar; é preciso uma organização do trabalho que possibilite o sujeito existir enquanto age. Transformar a organização do trabalho para que ela deixe de ser um obstáculo e passe a ser  também um campo de expressão para o sujeito, que considere suas forças, opiniões, sua história e que dê espaços para eles ou elas poderem se implicar e transformar seu campo de trabalho, tal como um arqueólogo em um sítio de escavação. A organização, permitindo que o trabalhador use a sua intuição, imaginação, técnica e criatividade na escavação, promove um espaço de saúde, potência além de trabalho. 

Referências:

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. Tradução de Ana Isabel Paraguay e Lúcia Leal Ferreira. 5. ed. São Paulo: Cortez, 1992. (Ou a edição correspondente à sua página 130).


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