Navegando no Nevoeiro: Perseguição e Desrealização no Trabalho Moderno


Navegando no Nevoeiro: Perseguição e Desrealização no Trabalho Moderno

Saúde Mental e Trabalho

O mundo do trabalho contemporâneo, marcado pela globalização, impõe uma "precarização" disfarçada de produtividade. Para autores como Christophe Dejours, essa precarização é "disfarçada" porque as organizações transferem os riscos e a carga mental para o trabalhador sob o rótulo de autonomia.

Como aponta Dejours em A Loucura do Trabalho, o sofrimento surge quando a distância entre o trabalho prescrito (normas e metas) e o trabalho real (o que o sujeito precisa inventar para dar certo) torna-se um abismo. 

Sartre nos lembra que o ser humano é um "projeto". No trabalho, esse projeto se manifesta no engajamento da personalidade para preencher a lacuna entre o que a empresa pede e a realidade do fazer. Quando você usa sua inteligência para alcançar os objetivos e desenhar soluções, você está reafirmando seu projeto de ser através da ação.

1. A Armadilha Persecutória e o Medo

Em um sistema de vigilância constante, a paranoia passa a ser uma resposta ao ambiente. Dejours afirma: "O medo é o motor da produtividade... O trabalhador passa a ver o colega como um delator e a chefia como um perseguidor" (O Fator Humano, 1995). Esta perspectiva é potencializada ao máximo pelas redes sociais, onde qualquer erro pode ser exposto publicamente, gerando o medo de "sair na capa do jornal".

2. Desrealização e Despersonalização: O "Eu" Espectador

Perdemos de vista o nosso "projeto de ser" quando a organização ignora a nossa subjetividade e nos trata apenas como meios para um fim.

Despersonalização: O sujeito opera em "piloto automático". A perda do projeto ocorre quando você para de se projetar no futuro e passa apenas a "efetuar" ordens. É a sensação de ser um objeto manipulado pelas metas.

Desrealização: O mundo parece "fake". Como o esforço humano é invisível e apenas o número conta, a realidade material perde o sentido.

3. Estratégias de Navegação: O Plano de Saída Psíquico

Para não naufragar, precisamos recuperar o sentido do sujeito através de um projeto deliberado.

A. O Planejamento como Ato de Soberania: O antídoto começa no "projeto do dia". Planejar não é apenas listar tarefas, mas exercer sua agência sobre o tempo. Ter opções "A" (foco total) e "B" (ancoragem sensorial) permite que você respeite seu estado psíquico sem cair na deriva. Quando você decide o que fará, você deixa de ser um objeto da agenda alheia e volta a ser o autor da sua própria história.

B. O Resgate da Inteligência Astuciosa (Mêtis) e a Apropriação: Reconhecer que o sistema só funciona porque você é inteligente é o primeiro passo. Mas o ciclo só se fecha na apropriação do que foi feito: ao final do dia, olhe para suas ações e reconheça a sua "marca" nelas.

Dejours destaca que o trabalho exige "um engajamento da personalidade para preencher a lacuna entre o prescrito e o real" (Psicodinâmica do Trabalho, 2012). Apropriar-se desse esforço é o que permite voltar a ver o seu "projeto de ser".

4. A Cooperação como Resistência e Reencontro com a Ação

O maior antídoto contra a desrealização e a paranoia é o coletivo. Como afirma Dejours, a cooperação exige confiança, e a confiança só nasce onde há espaço para a verdade.

  • O Resgate da Capacidade de Agir: Quando você compartilha com um colega os "truques" e a inteligência que usou para resolver um problema (a sua mêtis), você valida a sua própria realidade. O outro atua como um espelho que diz: "Sim, o que você fez foi real e foi inteligente". Esse reconhecimento mútuo é o que permite que o "Eu" saia do piloto automático e volte a se sentir agente da própria história.

  • Saindo da "Solidão em Comum": Ao formar parcerias reais — baseadas na solidariedade e não apenas na função — você quebra a lógica persecutória. O colega deixa de ser um "delator em potencial" e passa a ser um aliado no projeto de dar sentido ao trabalho.


5. Intervenção Precoce: O "Plano de Saída" nos Primeiros Sinais

Você não precisa esperar o esgotamento total ou uma crise grave para agir. A saída pode ser feita assim que os primeiros sinais de "estranheza" ou desconfiança surgirem:

  1. Identifique a "Vigilância Exacerbada": Se você começou a checar e rechecar intenções alheias de forma exaustiva, pare. O antídoto é a busca ativa por um "parceiro de fala". Procure alguém de confiança para validar sua percepção: "Você também sentiu que essa regra não faz sentido?". Validar a farsa do sistema com outra pessoa impede que você comece a duvidar da sua própria sanidade.

  2. Recupere Pequenas Soberanias: Se sentir que está virando um "objeto" das metas, mude algo pequeno no seu processo. Mude a ordem das tarefas, o lugar onde senta ou o modo como organiza seu material. Essas pequenas escolhas são afirmações do seu "projeto de ser" contra a passividade.

  3. Apropriação Diária: Não deixe o dia terminar sem "carimbar" o que foi feito. No final do expediente, faça uma lista do que você realizou, não do que a empresa marcou no sistema. Aproprie-se da sua inteligência: "Hoje eu resolvi X usando a minha criatividade".

  4. Corte a Contaminação Digital: Se a exposição nas redes sociais está potencializando sua paranoia, delimite espaços de "invisibilidade". Desligue as notificações e recupere o direito ao anonimato e à privacidade. O "Eu" precisa de um espaço onde não está sendo observado para poder se recompor.

Conclusão: 

Navegar em um mundo precário exige que paremos de olhar para o lado em busca de concorrentes e comecemos a olhar em busca de parceiros de destino. A verdadeira "saída" não é um evento dramático, mas uma prática diária de escolher a ação sobre a deriva e a parceria sobre a perseguição. Recuperar o sentido do trabalho é, em última instância, recuperar o direito de ser o autor da própria vida.

Referências:

DEJOURS, C. A Loucura do TrabalhoO Fator Humano (1995); Da psicopatologia à psicodinâmica do trabalho (2008).

DEJOURS, C.; GERNET, I. Psicopatología del trabajo (2012).







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