Você já sentiu que algumas relações no trabalho só existem enquanto há um "alvo" comum ou uma meta a ser batida?
Nas Clínicas do Trabalho, chamamos isso de Amizade Funcional. É aquele laço que parece sólido, mas que se dissolve ou se transforma em desconfiança assim que a conveniência termina.
O que é a Amizade Funcional?
Baseado nos estudos de Christophe Dejours, autor de A Loucura do Trabalho, entendemos que a configuração das organizações modernas do trabalho muitas vezes nos empurra para a "Solidão em Comum".
Estamos no mesmo espaço, mas não estamos ligados pelo afeto ou pela cooperação real, e sim pela utilidade.
A amizade funcional é um laço utilitário: eu me aproximo porque você tem informações que eu preciso, ou porque juntos somos mais fortes contra uma chefia autoritária.
O problema é que, quando essa "utilidade" acaba, o vínculo não se desfaz de forma natural; e no final, ele pode até terminar em paranoia.
A Lógica do Descarte e a Perspectiva Persecutória
Por que pode ser comum alguém "tirar o time de campo" de uma amizade assim que não vê mais vantagem?
O Ganho Secundário: No trabalho sob pressão, o ganho nem sempre é dinheiro. Às vezes, o ganho é o alívio emocional. Quando uma amizade passa a exigir "trabalho emocional" que a pessoa não tem mais energia para dar, ela simplesmente descarta o outro.
A Paranoia como Escudo: Para não lidar com a culpa de ser utilitarista, o indivíduo projeta no outro uma ameaça. É mais fácil dizer "me afastei porque aquela pessoa era invejosa" (perspectiva persecutória) do que admitir "eu só estava com ela por conveniência e uma necessidade e agora não me serve ou não me cabe mais".
A Escala da Desconfiança: Do Escritório para a Vida
Dejours explica que o trabalho é central para a nossa identidade. Se o ambiente profissional é baseado na vigilância e na punição, nós mesmo "treinamos" nosso cérebro para ser paranoide.Esse modo de sobrevivência transborda: começamos a aplicar a régua do "custo-benefício" e da desconfiança em amizades de longa data e até em relacionamentos amorosos. É um processo que chamamos de erosão da solidariedade.
Para não sentirmos culpa por esse descarte, para essa análise instrumental do outro, a nossa mente cria justificativas: "Me afastei porque aquela pessoa era estranha/perigosa". É a paranoia serve de escudo para esconder o fato de que a relação era apenas utilitária.
Como resgatar a saúde nas relações?
A saída, segundo as Clínicas do Trabalho, não é apenas individual, mas coletiva:
Pela Organização: Precisam substituir a avaliação individual feroz por espaços de cooperação real, onde o saber de um ajuda o outro sem que isso seja uma ameaça.
Pelo Indivíduo: É preciso coragem para restabelecer o que Dejours chama de Espaços de Fala. Falar abertamente sobre o sofrimento e as dificuldades do trabalho quebra o ciclo da paranoia. Quando compartilhamos o "trabalho real", deixamos de ser concorrentes para sermos parceiros de destino.
Como prevenir a "funcionalização" das relações?
Não é um processo fácil, mas é possível proteger nossos laços.
Aqui estão algumas dicas práticas:
1. Cultive o "Tempo Inútil" A amizade verdadeira sobrevive no tempo que não serve para nada além da companhia. Tente ter momentos com seus amigos (mesmo os do trabalho) onde o assunto não seja problemas, metas ou reclamações. Falem de sonhos, de bobagens ou de nada.
2. Pratique a Transparência Ética Se você sente que está sobrecarregado e não consegue dar atenção a um amigo, diga isso. É melhor admitir o cansaço do que se afastar criando teorias de que o outro é um peso ou uma ameaça. A honestidade evita que a paranoia ocupe o lugar da conversa.
3. Desconfie da sua própria desconfiança Se você começou a achar que "todos querem algo de você", pare e respire. Pergunte-se: "Eu estou vendo perigo ou estou apenas exausto?". Muitas vezes, a perspectiva persecutória é apenas um sinal de que sua bateria mental acabou e você precisa de silêncio, não de isolamento definitivo.
4. Valorize o "Ser" acima do "Fazer" No trabalho, somos o que fazemos. Na amizade, somos quem somos. Tente elogiar seus amigos por características de caráter (bondade, humor, paciência) e não por favores que eles te fazem. Isso reforça que o valor deles para você não depende de vantagens.
Conclusão:
A amizade funcional é o sintoma de um sistema que nos quer produtivos, mas isolados.
Reconhecer que estamos sendo "utilitários" é o primeiro passo para resgatar a amizade verdadeira: aquela que permanece mesmo quando não há nenhuma vantagem em jogo, exceto o prazer da companhia.
A amizade real é aquela que permanece quando a luz do escritório apaga e as metas são batidas.
É a segurança de que, mesmo que eu não possa te oferecer nada hoje além do meu silêncio, você ainda estará lá pelo simples prazer da minha companhia.💗🌻🌻🌻🌻🌻
Referências:
DEJOURS, Christophe. A Loucura do Trabalho: Estudo de Psicopatologia do Trabalho. São Paulo: Cortez.DEJOURS, Christophe. Da Psicopatologia à Psicodinâmica do Trabalho. Rio de Janeiro: Fiocruz.
DEJOURS, Christophe. O Fator Humano. Rio de Janeiro: FGV.

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