Não há contradição; há uma luta de intencionalidade.
Se o trabalho/ cargo/ emprego é o Martelo (meio/ferramenta) e o trabalho com sentido é a Obra de Arte (o fim/o projeto de ser), a luta é justamente para garantir que o meio sirva ao fim, e não o contrário.
A luta por um trabalho com sentido acontece em três frentes inseparáveis:
1. A Luta Ontológica: Resgatar a Autoria (Sartre)
A luta começa dentro da sua Consciência Livre.
O que é: Recusar-se a viver em Má-Fé (em autoengano). É um ato constante de desalienação mental.
Como Lutar:
Inverta a Função: Assuma que o Emprego é a sua situação (um fato dado), mas não a sua essência. Sua essência é a sua capacidade de escolher e projetar.
Reconheça o Poder: Mesmo nas tarefas mais precarizadas ou rotineiras, o Carpinteiro tem o poder de escolher o como. Você pode escolher a excelência, o cuidado, ou a ética, transformando a função passiva (o Martelo que só bate) em um ato ativo e de dignidade.
Exemplo Prático: O Martelo (o emprego) exige que você faça 100 entregas em tempo recorde. Você (o Carpinteiro) luta para que a qualidade intrínseca dessas entregas reflita sua ética profissional, mesmo sob pressão.
2. A Luta Social: Priorizar o Sentido (Marx e Antunes)
A luta é contra a lógica que impõe a alienação.
O que é: É lutar para que o seu Trabalho Concreto (a criação de valor de uso, o sentido que você produz) prevaleça sobre o Trabalho Abstrato (a criação de valor de troca, o custo que você representa).
Como Lutar:
Questionar a Métrica: Sempre que possível, defenda a qualidade, o propósito e o impacto real do seu trabalho sobre a métrica de tempo e custo.
Conectar: Busque ativamente a conexão entre a sua tarefa diária (a viga bruta) e o propósito final (a casa habitável e segura). A luta é manter a visão da Obra.
Exemplo Prático: Lutar para que o tempo seja dedicado à inovação (sentido) e não apenas à burocracia repetitiva (abstração), mesmo que a burocracia seja o que está sendo metrificado.
3. A Luta Prática: Delimitar e Investir (O Carpinteiro Estrutural)
A luta é pela gestão estratégica da sua energia e tempo.
O que é: É garantir que o Martelo (Emprego) gere o recurso (dinheiro, networking, aprendizado) que você precisa para construir a sua Obra de Ser fora do canteiro de obras.
Como Lutar:
Estabelecer Limites: O Martelo serve na Obra (o horário de trabalho), mas não deve entrar na sua Casa (sua vida privada). O limite é a linha de frente da luta.
Investir o Recurso: O salário e o tempo devem ser investidos no Projeto de Ser (família, estudos, arte, política, hobbies), que é a sua autêntica fonte de sentido e dignidade ontológica.
Em resumo, você não está lutando dentro da ferramenta; você está lutando para forçar a ferramenta a servir à dignidade e ao projeto de quem a empunha. A luta é a demonstração de que você é o Carpinteiro, e não o Martelo.
Referências:
Antunes, R. (1995). Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. Cortez.
Castro, F. G. (2012). O fracasso do projeto de ser: burnout, existência e paradoxos do trabalho. Garamond Universitária.
Marx, K. (Séc. XIX). O Capital: Crítica da economia política. (Diversas edições e traduções brasileiras).
Sartre, J. P. (1943). O ser e o nada: Ensaio de ontologia fenomenológica. (Diversas edições e traduções brasileiras).

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