Alan Indio Serrano explica esse conceito em um pequeno livro publicado na década de 1980 chamado "O que é Psiquiatria Alternativa".
No capítulo Bisturis, Pílulas e Psicanálises, Serrano lembra que a história dos tratamentos psiquiátricos acompanha a história das teorias sobre a loucura.
No primeiro momento, numa fase mais primitiva, o tratamento era constituído por rituais e caridade, com base em um espírito religioso.
Depois, o tratamento passa a ser o isolamento e a obrigação de trabalhar. Nessa fase, o tratamento evoluiu para um conjunto de regras morais, sacrifícios e castigos que visam a domesticar a animalidade do "louco", a partir de um conhecimento de que havia algo "dentro" da pessoa com forte base nas concepções religiosas e platonista de uma divisão entre corpo e mente, sendo que a mente era algo entendido como destacado e situado dentro do corpo.
Aproximadamente em 1880 a 1890, o "louco" busca um modelo médico, com o manicomialismo, e há o emprego de uma série de práticas físicas e psicológicas, como o uso de substâncias químicas com atos de vigiância e de punição.
Segundo o autor, essa fase foi marcada por:
"A medicina organicista, acreditando que a doença nasce diretamente do corpo, procura curá-la por intervenções físicas e químicas. Divide as psicoses em exógenas e endógenas. As primeiras ocorrem por problemas vindos "de fora", como o excesso de álcool, intoxicações e pancadas na cabeça que alteram a consciência. As demais, como a esquizofrenia e a psicose maníaco-depressiva, nascem de distúrbios bioquímicos [ou seja, "de dentro"], hormonais ou degeneração de células de dentro do cérebro" [Grifos e aspas nossos](SERRANO, 1985, p. 38).
Para "tratar", a medicina organicista empregou: cadeira giratória inventada nos Estados Unidos, hidroterapia, choques insulínicos, que levava o paciente ao estado de coma várias vezes sucessivas beirando a morte. Entre outros procedimentos, o choque elétrico foi amplamente difundido pelo baixo custo e a lobotomia colocava a pessoa em estado vegetativo, rompendo com toda a capacidade cognitiva. Em outras palavras: "A psicocirurgia destrói a personalidade da pessoa e tem pouco resultado no desaparecimento dos sintomas", no entanto, isso não o impediu de ser usado em larga escala.
Depois, foram incluídos os tratamentos com psicofármacos ou psicotrópicos, principalmente a partir da década de 1950. Eles vieram para "imobilizar os movimentos e amortecer os sentimentos, (e com isso) a preencher o vazio dos livros de terapêutica psiquiátrica" (SERRANO, 1985, p. 38).
Muitos pacientes tiveram acesso a essas práticas de psiquiatria de hospício, choques e drogas e algumas outras poucas começaram a ter acesso a um outro tipo de atendimento, puderam contar com o referencial da psicanálise. Sua base teórica, chamada de psicodinâmica, fundamenta uma parte importante da formação dos médicos e psicólogos na atualidade: "Ensina-lhes a compreender fenômeno inconscientes, impulsos instintivos e mecanismos psicológicos dos pacientes" (p. 39).
E agora, então, o que seria o Psicanalismo?
Serrano esclarece que mesmo com muita pesquisa e livros, o uso da psicanálise não fez significativa alteração na vida dos pacientes psiquiátricos dentro dos manicômios numa época passada e que outras observações demostram como Freud e sua obra foram mal usados.
"A psicanálise, muitas vezes, tem sido usada como teoria que pretende explicar o mundo dos homens. Deu base para interpretações psiquiátricas da história e da sociedade. Criou ideias segundo as quais todas as dificuldades sociais e pessoais são devidas ao mau desenvolvimento da personalidade. Daí passa-se a pensar que é o indivíduo que precisa ser corrigido para que a sociedade melhore" (p. 40).
"Segundo esta crença, pobreza é decorrência de psicopatia (personalidade mal desenvolvida), e não o inverso". Essa visão não procura ver na realidade as dificuldades encontradas pelas pessoas na vida de todos os dias e as dificuldades que enfrentam como a pobreza, a fome, miséria, desempego e medo da demissão. Empurrando para a "personalidade" a origem desses problemas e não como uma possível consequência.
"Sem dúvida o relacionamento familiar e o amor materno são importantíssimos. Mas eles só podem acontecer em ambientes favoráveis. A psicologia do indivíduo depende também de seu ambiente e das condições materiais de vida. Este exemplo mostram como o exagero do pensamento psicanalítico pode levar a uma compreensão unilateral do mundo. Trata-se de uma simplificação grosseira, muito a gosto daqueles que não querem ver os problemas sociais de nossa sociedade. A fim de não terem responsabilidades jogam todo o problema para o inconsciente e a personalidade das pessoas. Esta forma de explicar a sociedade chama-se "psicanalismo".
Psicanalismo:
"É uma tentativa de estender a psicanálise -estudo do inconsciente individual- a toda sociedade. Reduz a vida às explicações do inconsciente. Considera a sociedade uma coisa imutável e dependente apenas de impulsos pessoais. Os adeptos do psicanalismo afirmam que são "científicos" e "apolíticos" por rejeitarem ou minimizarem os conflitos externos, sociais, que as pessoas enfrentam diariamente" (p. 41).
Por fim, o autor menciona que essas pessoas que empregam o psicanalismo, muitos nem formados em psicologia e psiquiatria, mas com essas ideias, não conseguem compreender as limitações presente na psicanálise como explicação do homem. Segundo ele, elas são: 1. O fato de Freud ter uma formação parcial em sociologia e história; 2. Freud ser um homem de seu tempo e de seu grupo social, 3. O fato de que a estrutura social não foi estudada pela psicanálise, pois a psicanálise tem um método de pesquisa que a capacita a estudar a psicologia profunda dos indivíduos, não a história da sociedade.
Bom, o autor deixa claro que nem todos os psicanalistas caíram na tentação de reduzir o mundo à psicanálise, ele cita Adler, Reich, Fromm e discute suas posições e questões particulares desses autores.
Mas o foco desse pequeno texto foi efetuar uma pequena síntese desse conceito importante e tão presente no mundo das ideias psicológicas.
Particularmente eu já vivenciei algumas experiências onde esse conceito esteve presente e foram casos em que ao invés de contribuir, causaram danos significativos.
Atualmente o Psicanalismo está presente em diversos discursos sociais e nas falas de pessoas "influentes", então esse esclarecimento torna-se necessário. Destaco que uma postura fenomenológica nos ajuda a olhar a realidade para além das teorias.
Você já teve alguma experiência com o Psicanalismo?
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