O homem tem
relações com os outros de uma forma rígida e impaciente, quer consertar o que está errado nos outros. No âmbito do trabalho,
ele é crítico e irônico com as outras pessoas, procura controlar todo o entorno. No seu ponto de vista, o cliente
assume sempre o primeiro lugar independente de critérios éticos e morais. No
entanto, próximo ao seu aniversário, ele começa a ter uma visão de um menino de
aproximadamente oito anos de idade. Esse menino, sendo fisicamente mais robusto,
autêntico e com uma visão apreciativa e feliz da vida, o incomoda
terrivelmente. O protagonista, não conseguindo livrar-se do menino, manda-o
embora, busca medicamentos, até quando entende que não há
solução rápida e começa a levá-lo às suas atividades profissionais. O menino
vai conquistando, do jeito dele, o coração de diversas pessoas, como o da
assistente e de clientes com seu modo de ser autêntico.
Em seguida, o
protagonista entende que o menino era ele mesmo com oito anos de idade e
representava tudo o que ele se esforçou para deixar para atrás; seu corpo, sua
família, seus pais e seu jeito de ser e seus sonhos de ter um cachorro e ser aviador. Ele perdeu a mãe cedo por uma doença e sofreu bullying de outros meninos na escola, e ele elaborou essas experiências como se fossem
fracassos seus e culpa sua. Ser bem sucedido
financeiramente e profissionalmente foi a resposta que ele encontrou para essas diversas dificuldades.
A partir desse encontro com o passado, com o menino com oito anos, o protagonista necessitou repensar o seu modo de levar a vida, o qual aproximava-se de um colapso. O menino lhe comunicava frequentemente os erros que ele havia cometido em relação às suas expectativas passadas, pois não tinha cachorro, não era piloto de avião e nem tinha namorada. No momento em que o menino faz esses comentários, o passado se faz presente com uma grande força e deixam-no desnorteado. Sua casa era neutra, cinzenta, fria e sem vida. Pode-se observar no decorrer do enredo a ruptura entre os desejos passados, seu presente e seu futuro. O protagonista estava atolado em uma vida padronizada e estagnada, não conseguindo sair disso em direção à um futuro desejado.
Para pensar a constituição do sujeito, mais particularmente do “Ego”, Sartre em a “Transcendência do Ego”, publicado em 1936, destaca a diferença entre consciência e o “ego”. Essa distinção é fundamental, pois a consciência para Sartre, com base nos estudos de Husserl, é sempre intencional, ou seja, ela precisa necessariamente ter foco em algum objeto que pode ser de qualquer tipo, como um objeto físico, uma imagem, uma lembrança, etc. Nesse processo, o filósofo destaca a impossibilidade de existir um “ego” na consciência; em suas palavras, não há nada acima, abaixo e nem mesmo dentro da consciência como sua fonte ou condição necessária. De uma forma inédita, não elaborada anteriormente por outros teóricos da psicologia, o autor enfatiza que a consciência é liberta de algo ou qualquer coisa em seu interior e, com isso, e somente a partir disso, pode-se conceituar o termo “ego” mas sempre lembrando do tempo histórico de Sartre que empreendia muito dos seus esforços tendo como parâmetros e contraposição a psicanalise freudiana e sua terminologia[1], observando que é um termo colocado em parâmetros completamente distinto.
Para Sartre, o “ego” seria a “unidade psíquica transcendente” (Sartre, 2014; Vieira Junior, Ardans-Bonifacino & Roso, 2016), que significa uma amarração presente na consciência de segundo grau ( aquela que não é espontânea- a de primeiro grau), mas sim a consciência reflexiva a qual o sujeito desenvolve a partir dos elementos externos uma amarração com suas próprias reflexões. Em outras palavras, as coisas que são experienciadas pela pessoa são apropriadas por ela a partir de uma reflexão e dessa reflexão e amarrações que se desenvolve essa experimentação de um eu (ego). Esse eu só aparece na reflexão crítica.
Detalhando mais sobre o conceito, a partir de Sartre (2014), Vieira Junior, Ardans-Bonifacino & Roso (2016) e Schneider (2011), o ego é constituído por estados, qualidades e ações. Os estados seriam articulações entre as vivências e as emoções, sentidas pela pessoa de forma espontânea a partir de uma consciência de primeiro grau, com carga emocional, mas que a partir do momento em que elas se repetem, aos poucos vão sendo apropriadas pelos sujeitos como uma forma mais definitiva de acontecer. Por exemplo, em situações específicas de estudo há uma sensação de tristeza pelas diversas correções de texto ou de leitura sofridas em um processo de alfabetização. A criança não presenciando o momento de estudo com calma e tranquilidade, mas um processo de mediação agressivo e internalizando uma falta de aprender, pode ser apropriar desses momentos e cristalizá-los como uma experiência negativa significativa. No entanto, elogiar e enfatizar os ganhos na aprendizagem, mostrando-lhe as conquistas pode promover um bem estar relacionado ao processo. No caso do filme, o protagonista ao olhar o avião sente um mal-estar não localizado pela intensa carga afetiva contida naquele objeto. Os estados não seriam apenas as emoções, mas uma vivência particular entre a emoção e a situação, entre o corpo e experimentação daquela vivência, tal como os autores acima destacaram, de modo a fundamentar a relação entre ego e vida cotidiana.
No caso da qualidade, ela já se constituiria por uma “unidades de estados” (Schneider, 2011). De acordo com Vieira Junior, Ardans-Bonifacino & Roso (2016), a partir dos estados, é constituído as qualidades a partir do momento em que o sujeito vivencia uma determinada emoção com frequência e reage a certas situações sempre da mesma forma. No caso do consultor pessoal, podemos destacar os aspectos duradouros dessa personalidade na sua “natureza” mais fria e calculista em relação aos objetos do mundo e o distanciamento dos familiares.
Por fim, as ações tem relação direta com a produção do sujeito no mundo. Seria a práxis do sujeito: “Nosso ser é definido a partir das ações que realizamos, pois o ser humano é aquilo que ele faz” (Sartre, 2013). Destaca-se que toda a história do protagonista e seu modo de vida estavam em desacordo com seus anseios mais originais ou singulares, o sucesso econômico não era suficiente. O redirecionamento, a reflexão oportunizada pelo contato com o menino, a compreensão do lugar dele em relação a sua própria história, a revisão do passado e dos percalços proporcionaram uma nova forma de significar a própria vida.
Com isso, foi possível abrir novos espaços, construir um relacionamento afetivo, ter um cachorro e tornar-se um aviador. O filme, nesse sentido, pode assemelhar-se a um processo terapêutico não de modo a ressignificar a história, mas colocando uma outra luz sobre elementos e fatos importantes da história do personagem e refazer laços no presente e entendimentos para que, com isso, ele pudesse promover e efetuar novas escolhas.
Por fim, destaca-se que o filme mostra momentos especiais de uma vida e momentos importantes para produzir novos contornos em uma história. Sartre colocou em relevo a importância das biografias, não aquelas que narram de fora os elementos e feitos históricos de uma pessoa, mas sim os arranjos pessoais e as mediações fundamentais pelos quais geram uma produção e vida singular. O trabalho psicoterapêutico, na perspectiva sartreana, se coloca a tarefa de compreender de modo aprofundado uma biografia, de modo a não apenas elencar elementos externos ao sujeito, mas sim, compreender por dentro uma dinâmica psicológica com dimensões imbricadas e relacionadas, como o Ego, além das mediações as quais tornaram possível o sujeito construir determinadas obras ou levar a vida que leva e, com isso, produzir uma intervenção calcada nesse conhecimento. Destaca-se que tanto no filme, como em um processo psicoterapêutico, há necessidade de um Outro para elucidar as particularidades e arranjos pessoais. A psicoterapia é importante para promover uma compreensão dos saberes também cristalizados e promover uma mudança significativa.
Com isso, é importante destacar que escrever um novo capítulo é, acima de tudo, um ato de coragem e esperança. É reconhecer que nossas experiências, sejam elas de sucesso ou de fracasso, não definem quem somos permanentemente, mas servem como alicerces para o que podemos vir a ser. Com base nos ensinamentos de Sartre, a partir das nossas escolhas podemos assumir a autoria da nossa existência rumos a projetos que são importantes para cada um de nós e que forneçam melhorias nas nossas condições singulares de vidas.
Referências:
Sartre, J. P. (2014). O ser
e o nada: Ensaio de ontologia fenomenológica (23a ed.). Petrópolis,
RJ: Editora Vozes. (Originalmente publicado em 1943)
Schneider, D. R. (2011). Sartre
e a psicologia clínica. Florianópolis: Editora da UFSC.
Vieira Junior, Cezar
Augusto, Ardans-Bonifacino, Hector Omar, & Roso, Adriane. (2016). A
construção do sujeito na perspectiva de Jean-Paul Sartre. Revista
Subjetividades, 16(1), 119-130.
[1] De uma forma muito breve destaca-se
Id, Ego e Super-Ego na chamada segunda tópica freudiana, além do termo
inconsciente.

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